Vídeo-poema TATUADA

Tatuada é o vídeo-poema gravado na minha terra natal, Congonhas. Unindo poesia, performance, música e vídeo, o trabalho é uma experimentação de linguagem e de relação com o espaço histórico e efêmero. Veja >> aqui TATUADA Eu queria ter a pele tatuada, toda ela. Desenhada com as minhas palavras de valor, para não cair na vala das linhas tortas, dos espaços abismos. Ter rabiscados os impulsos mais certeiros e o carimbo dos dias de paz. Nenhum nome de alguém que tenha me arranhado o senso. Mas sim gritos de guerra, de vida, de susto. Caligrafia dançante para me manter acordada. […]

Espanto

Admiro a sensibilidade daquela mulher vegetal linguagem sutil tecida junto à fina flor sabedoria ancestral de infusões, banhos e chás observação meticulosa do amadurecimento, apodrecimento broto, pétala, rouquidão Me intrigo com a possibilidade da mulher beber uma árvore seiva amarga, sangue grosso, verde, puro e enorme me absurda imaginá-la conversando com as coníferas aprendendo a só ouvir silêncio por anos ao passo que, há séculos, elas esperam junto a ele por algum pequeno fenômeno retorcido Invejo a delicadeza de todo esse cuidado folhoso angulação luminosa necessária quantidade justa de água e expectativa constância do olhar destilado pouco a gotas A […]

Pousada

Eu desejo um amor saboroso. Um território pousada, sustentado pela inocência, pela ausência de armas. Eu desejo um amor lareira. Algo que aqueça um lar, mas ao mesmo tempo lance chispas rumo a um mundo desconhecido. Um sentimento despregado de simbiose e de fuga. Uma boia que embale o silêncio e a dúvida do próximo toque. Carícias e malícias noite adentro. Lirismo e gentilezas manhã afora. Surpresa. Um cheiro de cangote inconfundível, um beijo molhado. Alguém que provoque a minha palpitação celular e o meu melhor espírito de partilha. Uma unidade, feito pitanga, uivo, contorno da lua nova e do […]

Martedì

Qual é o tempo da queima de um cigarro?Qual é o tempo ideal do beijo?Qual é o tempo da vontade da chuva ou de Deus, que como disse Tereza, é quem chora? Qual é o tempo suficiente para uma saia rodar e rodar e rodar pelo salão?E o tempo da luz quando baixa?E o tempo da duração do perfume?E do eco da onda?Quanto tempo eu sangro? Quanto tempo a groselha finge ser sangue?Quanto tempo dura o sabor da Sangria na nossa boca doce? Quanto tempo eu posso correr na chuva, como quem voa?Quanto tempo eu suporto esperar pela sua mensagem? Quanto […]

Road Movie

Escorregar a mão pelo corpo sob a água morna Fugir de você num instante Cantar com a cara pra fora da janela, dentro de um vento frio Um chá grosso Uma saudade alada Um punhado de saliva Um picho Um baile Um pneu cantando Um monstro O medo disfarçado de mistério A palavra glória A vitrola do vizinho A baba do quiabo e a moleza do caqui A mentira O bolor Um santo pelado A vida quando parece do avesso Uma canção de Nino Rota A palavra tramonto A Fuga nº 2 O cheiro do ônibus O ritual do adeus […]

Alma🌱

Esse quadro é o último objeto de Dona Alzira que resta dentro da casa verde, plantada no imenso terreno de mesma cor. Nele está pintada minha vizinha, pequenina, como promessa de anjo. O curioso é que ela velha, era idêntica. Feito coisa que inverte o tempo. Me impressionei com a imagem, como me impressiono com a morte. Dona Alzira faleceu silenciosamente, um silêncio tão silêncio que só fomos descobrir 3 dias depois. Da minha janela avistei seu corpo, dentro de um lençol, carregado por dois homens. Parecia uma cena de Morte e Vida Severina. A morte é trabalho que delegamos […]

Oásis 🍃

A casa de Dona Alzira é essa imensa moita, um manancial de jeitos verdes. Dizem que a construção aqui no Cruzeiro é da década de 20. Tem bananeira, roseira, dama da noite, espada de São Jorge, costela de Adão e muito feitiço. Eu sempre admirei a pintura, esse desbunde de vida que aparece na minha janela. Mas quando lá pisei, parecia um portal. De beleza, calma e abundância. O tempo se esticou. Como é que a vida muda tanto de um muro pro outro? Eu queria ser neta de Dona Alzira, pra poder pisar na terra todo dia, olhar pra […]

Licença🌿

Essa é a entrada da casa de Dona Alzira, que foi minha vizinha por 10 anos. Sua morte, ano passado, foi estranha, fedorenta, solitária. Solitária não, seu cachorro Lorde tava lá, mordendo quem ousasse chegar perto. Desejei tanto que ela fosse enterrada ali mesmo, no terreno da sua capina diária. Eu nunca havia entrado lá, até o dia desse ensaio fotográfico, em que minha querida prima Isadora Fonseca propôs um olhar sobre meu cotidiano e topou registrar uma singela homenagem minha à vizinha. Chegando lá encontrei muitas espadas de São Jorge, como essa na entrada da casa. E esta foto me veio […]